Caldeirões, varinhas e olhos de lagarto - Afinal, o que é bruxaria?

(Imagem de Ann Milovidova, retirada de Pixabay)

Somos ensinados desde pequenos que "bruxaria" é uma palavra a temer ou que só existe na fantasia. "Bruxa" após anos continua a ser usada como insulto, mas o que é realmente ser bruxa? Neste artigo exploramos um novo mundo da espiritualidade, com a ajuda da bruxa Alexia Moon, e como este é visto pela sociedade.

O típico português treme ao ouvir a palavra "bruxa". Pensa na velha vestida de negro com o nariz curvado que faz amarrações e maldições, as velas vermelhas e pentagramas invertidos. No Portugal cristão, existe a ideia que a bruxaria é "do diabo" ou apenas mera fantasia. Para quem segue esta prática espiritual, a história é outra.

Bruxaria é definida, de acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, como "sortilégio em que se faz supor a intervenção do sobrenatural", no entanto, praticantes da mesma consideram mais uma ligação à natureza e energia de cada um. Segundo Scott Cunningham, autor de livros de bruxaria e wiccano, a bruxaria é "magia que utiliza o poder pessoal em conjunto com a energia de pedras, ervas, cores e outros objetos naturais. Apesar de ter insinuações espirituais, bruxaria, utilizando esta definição, não é uma religião" (Wicca: Guide for the Solitary Practicioner), já Raymond Buckland, outro autor wiccano, vê a bruxaria ligada ao ativismo: "É o reconhecimento de um universo holístico e uma forma de elevar o consciente. Direitos iguais; feminismo; ecologia; sintonia; amor fraternal; cuidado do planeta - fazem todos parte da bruxaria, a religião velha, mas nova." (Buckland's Complete Book of Witchcraft).

Mónica, 27 anos, mais conhecida nas comunidades pagãs e de bruxaria como Alexia Moon, bruxa desde os 11 anos e hoje sacerdotisa na Fellowship of Isis e dona do blogue Sob o Luar, vê a bruxaria como "uma arte que não tem de estar associada a uma crença religiosa especifica, pode ser praticada por pessoas com qualquer religião ou ausência da mesma. Consiste na utilização das energias e da natureza no nosso redor para fazer 'magia'. Implica autoconhecimento, e conhecimento da natureza". A palavra "magia", mais tipicamente associada a ilusionismo ou fantasia, na bruxaria ganha outro significado. "É a manipulação de energias do universo, seja a nossa energia pessoal ou energia natural, com um determinado propósito", completa Alexia. 

Isso são coisas da antiguidade

Para falar de bruxaria, temos primeiro de falar da feitiçaria, e para falar da feitiçaria temos de primeiro falar de xamanismo e druidismo. "Temos registos de práticas que se encaixam na descrição de bruxaria desde a antiguidade. O uso da magia e da natureza é algo que existe há milénios", começa Alexia.

As práticas mágicas começaram com o xamanismo, a primeira forma de espiritualidade tribal, sendo o registo mais antigo da prática na Europa vindo do século XVII. O xamã era alguém iniciado nas artes mágicas da cura e do espírito, sendo por isso uma das funções mais importantes nas tribos antigas - ele cuidava dos doentes, honrava os mortos, aconselhava, dizia o futuro. 

Antes de continuar para o druidismo, é importante esclarecer que, visto que aquilo a que chamamos de bruxaria nasceu na Europa e tem crenças europeias, vamos abordar apenas a perspetiva da espiritualidade e magia Europeias.

Druidas eram os antigos líderes religiosos nas sociedades celtas. Ensinavam os mitos e histórias, eram médicos, mantinham as leis, aconselhavam. Estes eram tanto homens como mulheres, e demonstravam uma especial ligação à natureza, em concordância com as crenças celtas. No século XIX, com o estudo do druidismo antigo, apareceram os primeiros autodenominados neodruidas. Estes viam o druidismo como um movimento ecológico, de amor a tudo o que o mundo oferece.

Considera-se a feitiçaria a verdadeira "antecessora" antiga da bruxaria, apesar desta prática, tal como as outras anteriormente mencionadas, ainda existirem atualmente. No século XVII e XVIII era considerado feiticeiro um homem de grande conhecimento oculto, que sabia divinação, medicina, alquimia e astrologia. Os feiticeiros faziam parte da corte, sendo os que existiam entre o povo chamados de curandeiros ou homens/mulheres sábios - até já não serem úteis. Quando o seu "poder" era temido, eram chamados de bruxas.

(bruxas a ser queimadas na fogueira)

Todas para a fogueira

"Em inglês, witch. Na Europa e na Grã-Bretanha medievais, as 'curandeiras' costumavam ser chamadas de wicce - uma palavra anglo-saxónica que significa "aquela que dá forma" - da qual surgiu o nosso termo witch que, por sua vez, deriva da palavra alemã wicken (conjurar)", Oberon explica a etimologia de witch no seu livro Grimório para o Aprendiz de Feiticeiro. Já a palavra portuguesa bruxa tem origem no italiano brucia (queimar), remetendo para a forma como as bruxas eram executadas. 

As pessoas executadas por bruxaria durante a inquisição eram principalmente mulheres, pessoas que iam contra os ideais da igreja Cristã na altura. Antes da inquisição, as práticas das curandeiras e sábios não eram condenadas, pelo contrário. No entanto, para estabelecer poder total, tornou-se do interesse da igreja "caçar" estes praticantes. Na inquisição eram acusados de bruxaria não só estes praticantes espirituais, mas também qualquer mulher que não coubesse nos valores cristãos, pessoas de outras religiões, pessoas da ciência, escravos, qualquer pessoa que não tivesse nos seus interesses a igreja. A palavra bruxa ficou conhecida com a pior conotação possível devido à inquisição.

"Foi com o impulso da Wicca nos anos 50 que aquilo a que hoje chamamos de bruxaria terá começado mesmo", explica Alexia. 

Ah, então é uma religião nova

Wicca, popularizada nos anos 50 por Gerald Gardner e Scott Cunningham, ainda hoje os autores mais referenciados por praticantes de bruxaria, é uma religião neopagã que tem nas suas bases a bruxaria. Gardner chamou a religião de um "culto às bruxas" que tinham morrido. Cunningham define Wicca como "uma religião pagã contemporânea com raízes espirituais no xamanismo e expressões de reverência à natureza. Entre os seus temas principais estão: reverência perante a Deusa e Deus; reencarnação; magia; observações rituais da lua cheia; fenómenos astronómicos e agrícolas; templos esferóidais, criados com poder pessoal, no qual rituais ocorrem". Aqui, já conseguimos ver algumas das práticas que depois fariam parte da bruxaria separada da Wicca.

Skye Alexander, autora de livros de bruxaria atuais, escreve sobre a diferença entre as práticas "Há pessoas que erradamente pensam que Wicca e bruxaria são sinónimos. Wiccanos, geralmente, praticam bruxaria, mas nem todas as bruxas têm crenças Wiccanas, logo não se considerariam Wiccanas. De forma simples, Wicca é uma religião, como Cristianismo ou Judaísmo. Tem práticas, crenças e códigos éticos definidos"(O Guia Moderno da Magia). Identificaram-se como bruxas, bruxos e bruxes aqueles que acreditavam no "culto às bruxas" e nas práticas antigas, mas não se encaixavam nos valores e crenças Wiccanos.

Alexia reforça a ideia: "A Wicca é um caminho religioso iniciático sacerdotal e de mistérios. É uma religião fechada que requer iniciação. Não existe uma organização como no Catolicismo em que se tem uma figura vigente no poder, mas a organização é feita em Covens [grupos de bruxos]. Já a bruxaria, não é uma religião nem precisa de estar associada a uma religião, uma pessoa pode ser bruxa e não acreditar em divindades, ou até participando numa religião monoteísta abraâmica".

A conclusão é que, apesar de a Wicca ter feito reemergir a bruxaria, as palavras não têm o mesmo significado no mundo espiritual: "Inicialmente fazia sentido a Wicca ser chamada só de bruxaria, porque nos anos 50 não eram conhecidos outros tipos de bruxaria fora da religião, ou se eram, ainda não se chamavam de bruxaria. Atualmente, a distinção é necessária", conclui a bruxa.

10 anos depois da popularização da Wicca por Gardner, o movimento feminista apropriou-se da religião como forma de empoderamento.

As mulheres é que acreditam nisso

"Durante os anos 60 e 70 com o feminismo emergente a Wicca ganhou popularidade porque oferecia um equilíbrio e igualdade maiores que as religiões patriarcais" escreve Skye Alexander. Tanto a Wicca como a bruxaria honravam (e honram) as mulheres que morreram indevidamente por serem "bruxas", muitas destas mortas por lutarem por direitos iguais ou estudarem por si mesmas, sendo por isso a prática muito associada ao feminismo. 

Alexia explica melhor a associação da bruxaria ao feminismo: "Havia a ideia que a bruxaria dava uma independência diferente à mulher, porque é uma prática ativa. Dá todo um nível diferente de independência, de assumir as rédeas, que, ainda hoje, não é muito o que as pessoas querem que uma mulher faça". Adiciona a ideia do ódio à bruxaria ter relação com o ódio à mulher: "Nunca falam no facto de os homens também serem bruxos. É sempre referida a mulher e sempre com um caráter negativo."

"Neste clima cultural, a bruxa é cada vez mais vista como um símbolo de poder feminino, mas ela é igualmente um símbolo de perseguição da mulher (...) Durante anos, a palavra 'bruxa' tem sido usada para castigar as mulheres e a sexualidade feminina" escreve a professora de Estudos de Género Kristen J. Sollée na sua análise à bruxa relacionada com o feminismo (Witches, Sluts, Feminists).

Sollée explica no seu livro a bruxaria ser relacionada ao feminismo na modernidade, e como esta é vista de forma negativa, por causa dos media que consumimos.

(Cena do filme O Feitiço)

Só existe em filmes

"Bastou a Wicca saltar o lago para a América e o capitalismo tratou do resto", brinca Alexia.

São muitos os filmes e livros fantasiosos, e até de terror, que existem sobre a bruxaria. Temos fantasias como Harry Potter, Hocus Pocus, As Aventuras Sombrias de Sabrina; terror como O Feitiço, A Bruxa, O Bosque de Blair Witch, Salem, American Horror Stories Coven. Todos tratam a bruxa como algo completamente fantasioso, ou, se não é fantasia, é algo perigoso e associado ao Diabo. Aqui é preciso fazer a distinção entre Satanismo e bruxaria. Satanismo é uma religião dedicada a Satanás, enquanto que a bruxaria, como já explicado acima, é uma prática dedicada à natureza e autoconhecimento. "A ideia da bruxa satânica é propaganda dos media", explica Alexia. Esta ideia vem das acusações de bruxaria feitas durante a inquisição, em que qualquer pessoa que não fosse a favor da igreja, era a favor do Diabo.

Sollée, no seu livro, cita a critica Morgan Claire Sirene em relação ao filme O Feitiço: "Este filme é um pesadelo feminista mascarado de filme cool de subculturas. Quando digo pesadelo feminista, digo as feministas originais: As Bruxas. Este filme não é uma celebração, é uma queima". É explicado como mesmo os filmes que são "sobre" bruxaria acabam por mostrar a prática de uma forma negativa e estereotipada. 

A sacerdotisa reforça esta ideia: "Temos, por exemplo, a série Salem. Havia coisas corretas em relação à História, mas mesmo sabendo a história da bruxaria, não dava a melhor imagem. Nós não nos juntamos à noite para dançar em piscinas de petróleo (risos). Esta ideia da bruxa continua a ser propagada porque ninguém quer ver uma história sobre bruxas que realmente fazem as coisas que as bruxas fazem, seria aborrecido. Querem a fantasia, que envolve sempre adorarmos um demónio qualquer. Os media querem passar essa imagem".

A bruxaria é apropriada pelos media para contar as suas histórias, de fantasia, de terror, de feminismo. A essência simples da prática relacionada à natureza é deixada para trás e substituída pelo que entretêm. Esta imagem propagada pelos media afeta a forma como todos os países vêm a prática espiritual.

A minha avó também fazia mesinhas

Em Portugal, a bruxaria é uma prática de avós que é ensinada de ouvido em ouvido. Por isto, não há muito escrito sobre a prática tradicional portuguesa. 

"A bruxaria tradicional portuguesa só a sabemos das nossas avós, das bruxas da aldeia, das curandeiras. Dado a sermos um país extremamente católico, as práticas de bruxaria portuguesa são influenciadas pelo catolicismo. Envolve o uso de santos, da reza, de Deus. Nas aldeias, o conhecimento da bruxaria era passado de pessoa em pessoa, mas sempre adaptado à igreja para ser aceite, principalmente durante o Estado Novo" explica Alexia.

Apesar desta ligação entre a bruxaria portuguesa e o catolicismo, devido à forma como é representada nos media continua a haver preconceito contra a mesma. As gerações portuguesas mais novas não praticam a bruxaria associada ao catolicismo, praticam-na mesmo sem nenhuma religião associada, apenas com pura adoração à natureza e energia pessoal.

Não sabia que ainda existia

"O termo hoje aplica-se a homens e mulheres, e uma grande parte da magia deles é voltada para a cura: das pessoas e da Terra. Muitos bruxos ainda praticam adivinhação e técnicas mágicas para a evolução da consciência" escreve feiticeiro Oberon acerca dos autodenominados bruxos atuais. A bruxaria, como qualquer outra prática espiritual, evoluiu com a sociedade e reflete os ideais da sociedade atual.

Skye Alexander dedica uma parte do seu livro ao porquê da bruxaria estar a ganhar popularidade hoje: "Bruxaria ressoa connosco porque trata de problemas importantes de hoje: respeito pelo ambiente, igualdade de género, ultrapassar preconceitos religiosos e pensamento fechado."

Entre autores, parece haver um consenso que a prática da bruxaria na modernidade envolve: autoconhecimento; meditação; manifestação; lei da atração; amor à natureza; amor aos astros; intuição; intenção; divinação; empoderamento; independência; ativismo; evolução. Nenhum destes pontos é mau por si mesmo, aliás, todos eles existem independentes da bruxaria, a prática apenas os junta. É algo muito mais simples do que rituais à lua cheia numa língua desconhecida. "Em geral, maior parte das bruxas querem melhorar-se a si mesmas e a humanidade, e viver em harmonia com o universo", conclui Skye. 

Como eliminar os preconceitos atuais acerca da bruxaria? Para Alexia, a resposta é simples: "Quem pode, deve falar abertamente sobre o assunto. Não se esconder. Explicar. A educação é o caminho para mudar a perspetiva das pessoas acerca da bruxaria. Acima de tudo, não ter vergonha de quem somos."



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