Literatura fantástica em Portugal: a realidade da fantasia


Literatura fantástica, um género de livros muito conhecido, mas pouco valorizado. Descobrimos qual é a realidade da fantasia, o que causa esta desvalorização e como podemos apoiar a literatura fantástica portuguesa, através da voz de escritores, leitores e livreiros.

Guerreiros, magia e dragões, são estes alguns dos elementos que podemos encontrar em livros de fantasia. No entanto, a literatura fantástica não é um conto de fadas. Autores portugueses como Filipe Faria e Sandra Carvalho são desvalorizados pelo seu país, que deixa os livros de fantasia nas estantes. "Portugal é um país muito sisudo", explica Sandra, autora de "A Saga das Pedras Mágicas" e "As Crónicas da Terra e do Mar", que sente o país ter medo de imaginar estes mundos fantásticos que escreve.

A fantasia é um género recente, com a sua origem oficial no século XIX, mas, em simultâneo, antigo, pois as bases da literatura fantástica são os mitos e lendas da antiguidade. Define-se como toda a história que retrata eventos sobrenaturais ou mágicos, que não sejam da realidade. Nesta, está encapsulado também o género de Ficção Cientifica e Terror, mas o subgénero em que as pessoas pensam quando fantasia é mencionada é a denominada "alta fantasia", que acontece num mundo completamente diferente do nosso, normalmente com inspiração medieval e mitológica.

"Em Portugal sempre existiu um grande preconceito sobre a literatura fantástica", conta a escritora. Sandra Carvalho cresceu num Portugal em que não tinha acesso a livros de fantasia, e hoje, luta para que a literatura fantástica portuguesa seja valorizada.

A ascensão e queda da fantasia

Estamos nos anos 80, é publicada uma trilogia que iria mudar a literatura fantástica para sempre. Mas esta trilogia só ganhou fama em Portugal quando saíram os filmes do mesmo nome: "O Senhor dos Anéis". Foi com os elfos, magos e guerreiros de armadura brilhante que começou a época de loucura pela fantasia em Portugal. Sandra conta sobre a importância que estes filmes tiveram: "As pessoas aperceberam-se, pelo universo de Tolkien, que havia um universo fantástico para adultos."

No mesmo ano da estreia das histórias de fantasia no grande ecrã, Filipe Faria ganha o Prémio Branquinho da Fonseca - Expresso/Gulbenkian pelo livro "A Manopola de Karasthan" da sua coleção "As Crónicas de Allaryia", inspirado por J. R. R. Tolkien, o autor de "O Senhor dos Anéis". "Para ser completamente sincero, nem sei se tinha conseguido publicar os livros se não fosse por esse contexto que saiu na altura", explica o escritor, desiludido com um Portugal que já não aprecia a sua fantasia. 


(Filipe Faria, fotografia retirada do seu blogue)

Joana Martins tinha 16 anos quando se deparou pela primeira vez com o livro "Harry Potter e a Pedra Filosofal" nas estantes de uma livraria. Cada página que leu, apaixonou-se mais e mais pela literatura fantástica. Hoje, é mãe, tem 36 anos e espera motivar a sua filha a um dia ler também: "Ela tinha dois anos quando eu estava a ver os filmes e ela ficou curiosa, acabou por ver comigo a Pedra Filosofal". Apesar de esperar que a filha ganhe uma paixão pela leitura, Joana já não tem tempo para ler os livros que tanto adorava quando jovem: "Acabo por ver mais através de séries ou filmes."

O aumento da produção de séries fantásticas, como "Guerra dos Tronos" e mais recentemente "Shadow and Bone", faz com que Portugal fique de novo atento ao género de fantasia. "A abertura que há nas televisões através das séries e dos filmes ajuda muito, porque muitos acabam por ir aos livros depois de terem visto as séries", conclui Sandra Carvalho.

Não é só para crianças

"O que vemos bastante são livros juvenis, para crianças" diz Gonçalo Sibôrro, ávido leitor de fantasia, indignado. Para o jovem de 20 anos, a fantasia para um público adulto é esquecida pelas editoras, passando a ideia que esta é só infantil.

Sandra já ouviu muitas vezes que a literatura fantástica é infantil ou demasiado romântica: "As histórias que nós ouvimos em crianças são muito ligadas a esse universo das fadinhas e dos duendes, e depois quando nós crescemos, se calhar começamos a pensar que não pode evoluir muito para além disso". Filipe subscreve a esta ideia, concluindo que o facto dos contos de fadas e livros de fantasia terem os mesmos elementos cria o preconceito contra a literatura fantástica como infantil. Tanto os seus livros como os de Sandra têm os cavaleiros e magia que encontramos nas histórias para crianças, mas o seu tom é diferente, com batalhas sanguinárias, problemas adultos, romance, drama. "É uma mistura de todos os outros géneros" explica Sandra. Filipe diz que já conheceu leitores de todas as idades: "Acabam por ser para quem os ler". 


(Sandra Carvalho, fotografia retirada do seu blogue)

Sandra relata que mesmo quando era apenas leitora, existia este preconceito: "Não havia aquela ideia de que houvesse uma fantasia para adultos, que a fantasia fosse uma literatura séria". Gonçalo Sibôrro culpa por completo as editoras por ignorarem a fantasia para adultos.

O negócio da literatura

"As editoras não investem neste tipo de livros", suspira Gonçalo. Sandra Carvalho relembra: "Nós temos que pensar que as editoras são um negócio como qualquer outro. Estão à procura do lucro". A autora apela aos jovens para pedirem e comprarem livros de autores portugueses para as editoras se aperceberem do seu valor.

Segundo um relatório da Picodi, 26% dos leitores preferem o género de Fantasia e Ficção Ciêntifica, 37% não leem livros de todo, e dos que leem, 50% compram livros apenas uma vez por ano. 46% das suas escolhas são influenciadas por recomendações de amigos, 19% pelas opiniões de bloguistas e 13% por filmes.

Atrás do balcão da livraria "Palavras de Culto" está Alexandre Crespo, que não é estranho nenhum ao negócio da literatura. Já é dono da livraria há 15 anos e vê todo o tipo de leitores entrar pelas portas de vidro ao lado da montra cheia de romances. "O público de fantasia é um público muito particular" começa a explicar. Sobe as escadas até uma pequena estante com um letreiro azul onde lemos em letras grossas "Fantástico". Retira os livros para mostrar as coleções mais vendidas enquanto revela que a fantasia vende mais quando sai uma série ou filme baseada nos livros - fora disso, o género é um nicho. Qual o género que mais vende? O Romance. "Acontece diariamente virem à procura do livro da senhora que apareceu na televisão", Alexandre argumenta que parte do papel para promover literatura é dos media.


(Gonçalo Sibôrro lê "A Alvorada dos Deuses" de Filipe Faria)

Gonçalo Sibôrro adiciona a esta ideia, colocando a culpa nas redes sociais: "A forma como os jovens consomem entretenimento hoje em dia, é de consumo rápido. E isso não calha bem com o tipo de livros de fantasia que temos, que têm muita informação, são maçudos."

Fantasia em rede

"Eu acredito que eu consigo tirar mais conteúdo e sentir-me melhor a ler um livro do que a ver uma série, e é isso que eu tento passar para os meus seguidores. É esse o papel dos influenciadores, dizermos que livros são importantes" esclarece Jhulia Clara Araújo, que com 23 anos tem 54 mil seguidores no TikTok e sete mil no Instagram. Sempre teve uma paixão pela leitura, e procura passar essa paixão para os seus seguidores. "Eu pensava que ninguém ia gostar", Clara começa a contar sobre a primeira tentativa de partilhar os seus livros favoritos, e como estava sob a ideia que os jovens não gostam de ler até ver as suas redes sociais cheias de mensagens curiosas pelos livros que mostrou. "Cada vez mais os jovens querem perder-se num universo que não é tão real como aquele que nós temos", conclui.

Sandra Carvalho aposta nas redes sociais para trazer mais leitores à literatura fantástica portuguesa, não só à que já existe, mas também à que virá: "É tão importante que nós, enquanto leitores, enquanto youtubers, enquanto bookstagrammers, divulgarmos e ajudarmos para que jovens escritores possam ter o seu lugar". No Instagram da autora vemos os seus livros partilhados por influenciadores como Jhulia Clara Araújo, os denominados "bookstagrammers", uma comunidade de leitores nas redes sociais cuja missão é partilhar literatura com o mundo, que acabam por influenciar as tendências de livros. "É necessário mostrar para que também, do outro lado, nos levem a sério", conclui Sandra.

(Clara Araújo mostra os livros que lê aos seus seguidores)

Mas os livros mais partilhados nesta comunidade continuam a ser os estrangeiros, com capas esteticamente agradáveis e relacionados com séries e filmes. "É algo que quero melhorar", diz Clara, que quer começar a ler e partilhar mais autores portugueses e não apenas o que está nas tendências. "Quero conhecer uma Lisboa que não vejo todos os dias", sonha em voz alta com um Portugal fantástico.

Ler, reler e escrever

"Quem escreve fantasia tem todo esse trabalho de fundo, tem muita pedra por partir", Filipe Faria apela não só à leitura, mas também à escrita da fantasia. Considera fantasia um género diferente dos outros, que requer adaptação, por acontecer num mundo diferente do nosso, mas, que contribui para a cultura de quem lê. Jhulia Clara subscreve a esta ideia: "os escritores trazem-nos novas culturas, novos mundos, aprendemos através dos livros."

Sandra Carvalho pede que Portugal deixe ser tão sério e sonhe através da literatura fantástica: "Abre muitos horizontes. A literatura fantástica é alimento para a imaginação". Clara é uma das portuguesas que já se deixou sonhar: "É uma realidade onde eu posso ser livre, onde nos podemos perder e encontrarmo-nos. Um livro é a porta para tudo o que está no nosso mais profundo subconsciente".

"Apostem em autores portugueses, para que a nossa sociedade possa mudar um bocadinho e possamos crescer todos juntos e aprender todos juntos" termina Sandra. Filipe coloca o ponto final: "Ler fantasia é um desafio que convido as pessoas a encetarem, porque no fim, vale a pena."




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