Só insetos flutuam em piscinas desertas

Andas pela mesma rua de sempre. Provavelmente caminhas em direção ao trabalho ou à escola. Se calhar, vais encontrar alguém que te é especial. Sim, agora sabes que sim: vais encontrar Alguém. Andas com um ligeiro salto no passo. Não sentes as pedras da calçada abaixo de ti. Flutuas. Sentes o vento acariciar-te a mão, dedos que se entrelaçam com os teus. Não há mais ninguém na rua a não ser tu e o vento.

Já há muito tempo que não te sentias assim: livre. Não há peso. Estás a flutuar numa piscina, aquela em que nadavas quando eras criança. Ficas lá, a olhar as estrelas que se refletem naquelas águas que parecem tuas. Fecharam a piscina para sempre. Agora, deve estar vazia, com ferramentas e o chão sujo da poeira de planos inacabados. Se de novo conseguisses entrar atiravas-te lá para dentro num momento de impulso. E com os ossos quebrados havias de flutuar e ver as estrelas novamente.

Voltas à rua. Ainda a flutuar, queres fechar os olhos - num momento de egoísmo - queres fechar os olhos e apenas sentir. Fechas os olhos. Não vês nada, nada, a não ser a escuridão das tuas pálpebras, ligeiramente cor de rosa, nevoeiro a querer passar por elas. Perguntas-te se o nevoeiro também é vento, se foi ele que entrelaçou os dedos com os teus. Sentas-te na escuridão das tuas pálpebras a ponderar. Não há nada mais precioso que estes momentos em que simplesmente te podes sentar no nevoeiro, na escuridão, no flutuar.

Depois lembras-te: vais encontrar Alguém.

Abres os olhos e o nevoeiro não está. Sentes a calçada sob os teus pés, as pedras que abanam ligeiramente, as ervas daninhas, que entre elas, tentam crescer. Uma multidão de pessoas que também são nevoeiro passam por ti, chocam contra os teus ombros como um novo vento que de repente se fez. São um nevoeiro perdido, violento. Entre elas, procuras Alguém. Estavas tão bem a flutuar que te esqueceste de quem. Mas quando vires hás de-te lembrar, não problema.

Talvez até haja.

Não acredito que te esqueceste. Esquecer Alguém assim? Deixar Alguém ficar na desmemória para tu conseguires ter um momento de paz na escuridão e assim negar a existência de quem vais encontrar? O que haveria Alguém de pensar? O que pensarias tu?

Sentes o telemóvel vibrar no bolso.

Olhos. Mas não são olhos teus. Talvez até o sejam, mas estão à tua frente, fora de ti, multiplicados infinitamente. Olham para ti e não os reconheces. E eles fazem outro nevoeiro, mas um nevoeiro que não te ama, não entrelaça dedos. Um nevoeiro que não é violento, não é perdido. Apenas um nevoeiro. Olham para baixo, para a frente, para cima, mas independentemente da direção do olhar, sabes que todos olham para ti. Entre eles procuras os olhos de Alguém. Não encontras. Olhas mais e eles olham de volta. Respiras. Seguras a respiração.

Vais encontrar Alguém.

O telemóvel vibra de novo. Cheguei.

Quatro paredes. Quatro paredes sujas, rasgadas, socadas. No canto está Alguém. Alguém sujo, rasgado, socado. Uma mão fina arranha a parede com as unhas roídas até à carne. Arranha, Arranha, Arranha. Uma aranha desce e cai sobre a face de Alguém. A minha face. A face que me roubaste quando rasgaste a minha pele e entraste cá para dentro. Abro a boca para a aranha entrar. Sinto-a descer a minha garganta, tece a sua teia pelos tubos. Chega-me ao fígado, uma mosca presa na seda. Arranha. Arranho o rasgão que me deixaste no meio do peito. Arranho, Arranho, Arranho. Chego com o meu braço longo aos órgãos que não são meus. E sinto as patas de aranha a arranhar, arranhar, arranhar. Num movimento arranco o fígado e sai a aranha. Com um dedo ósseo coloco-a gentilmente na parede. Como o meu fígado.

Estou na rua. Espero.

Oiço um telemóvel vibrar.

O Alguém que encontras não tem corpo, mas tem olhos. Olham-te lado a lado aos teus. Não consegues levantar os pés. Sentes a garganta fechar. Há quanto tempo estás a suster a respiração?

Oiço um telemóvel vibrar. Estás por perto.

Olho-te. Olho-te e percebes que a escuridão é cegueira, que o nevoeiro é confuso, que a piscina é vazia, que as estrelas estão mortas. Estás assente no chão. E assente no chão, sou mais alto que tu. Muito mais alto. Eu sou o teu céu quando olhas para cima, as tuas paredes, o teu chão. Sou alguém que esqueceste, mas eu lembro-me de ti.


Esperei por ti.

Não sabes o quanto te amo.

Quatro paredes. Dois corpos encostam-se um ao outro deitados. Dois corpos frios, dois corpos perfeitos. Não olham, não andam, não flutuam, não arranham. Sussurram um ao outro numa língua só deles. Uma língua só nossa. Sinto a tua frieza na minha pele cinzenta e paro de respirar, se é que alguma vez o estava a fazer. Tu não estás. O teu peito não sobe, não desce. E é assim que gosto de o ver. É assim que gosto de ti.

Alguém está à tua frente. É alto, muito alto. Por fora, um buraco negro, magro, com braços, pernas, cabeça, cara. Se os teus pés não estivessem colados ao chão, de certeza que serias sugado para dentro do seu ser. Por dentro,  conseguirias saber se estendesses o braço através do rasgão que tem no peito. Queres estender o braço. Mas os olhos param-te. Os olhos sempre te pararam.

Olhas para Alguém. Alguém olha para ti. As pessoas olham para ti. Os nevoeiros olham para ti. Olham um para o outro. Reconheces os olhos. Tu lembras-te.

Quatro paredes. Levantas-te e olhas para mim. Paro. Faço um som surdo a queixar-me da saudade de te sentir. A única luz, vinda de um pequeno buraco no teto, ilumina a tua face de cabedal cinzento. Bela. A poeira voa. Bela. Forma uma aura de luz e partículas brancas. Bela. Os teus olhos enublados e leitosos nada dizem. São belos.

Alguém estende um braço negro na tua direção. Agarra-te no braço. Não dói, apesar de parecer agarrar com força. Nem sentes sequer que alguém te tenha tocado. Mas a mão, ou o que seria uma mão se Alguém tivesse corpo, está no teu braço. Alguém se aproxima de ti lentamente, examina a tua face. Dobra-se como plasticina preta, sem ossos que se possam quebrar. Chega a cara à tua. Uma cara negra, vazia, vidrada. Ouves a respiração que faz um som agudo a cada expiração, um zumbido que ensurdece. Um vento frio toca-te os lábios. O telemóvel vibra e baixas a cabeça.

Foi esta a cara que escolheste? Gostaria que ma emprestasses, para eu saber como é tê-la. Passo um dedo fino pelos limites da tua cara, deixando uma linha vermelha. A camada de pele caí lentamente e aterra-me nas mãos. Levo-a onde a minha deveria estar, estico, puxo, com cuidado para não quebrar mais, não mais que já está de quando tu a colocaste descuidadamente. Quase que me cabe. Poderia correr e ficar com ela. Tu não a utilizas para grande coisa. Depois de tudo o que fizeste, não a utilizas para grande coisa. És cruel. Esta nossa pobre face quebrada.

Aproximo-me da face que gostaria de ter. Piscas os olhos lentamente quando sentes a respiração que me deixaste. Agora vejo-os claramente. Têm cor. Que lhes fizeste? Eram tão belos antes. Aproximo-me. Mais perto. Mais perto. Até sentir a tua face. O telemóvel vibra e baixo a cabeça. Tu baixas também.

Quatro paredes. Ficas a olhar-me durante horas na mesma posição. Parados. Quase penso que viraste pedra, mas não estico o braço para verificar. Eu sei que gostas tanto de olhar para mim como gosto de olhar para ti. Já não há luz nas quatro paredes. Já não há aura. Apenas olhar. Passa um dia. Sorris um sorriso de cimento mole, descaído e largo. Sorris…

Olhas para a calçada. Não agarras no telemóvel. Ele continua a vibrar. Vibra, vibra, vibra. Continua a vibrar. Parou. Continuas a olhar para a calçada.

Quatro paredes. Sussurros: Vamos. Onde? Podemos sair. Não. Podemos. Podemos? Pelo buraco. É pequeno. Conseguimos passar. Como? Somos moles. Tu és. Alguém é. Vamos. Vamos.

Ainda a olhar para a calçada, levantas os braços e tentas empurrar-me. As tuas mãos entram no alcatrão que é a minha forma e saem negras, líquidas. Tentas voltar para trás, mas os teus pés ainda estão no chão. Estico o braço em direção ao teu peito. Todo ele vira líquido negro, óleo, que escorre pelo teu corpo. Sorris.

Saímos das quatro paredes. A luz é forte. Queima a nossa pele cinzenta. Escurece lentamente. Estás em pé, eu ainda a rastejar, a tentar lidar com a luz. Abres os braços e deixas-te queimar. Levanto-me também. Uma piscina. Tocas na água com um pé e ele encolhe-se para dentro de ti.

No teu sorriso vejo tudo o que tens feito até ao nosso encontro. É para isto que tens utilizado o corpo? É esta vida egoísta que tens levado? És um conjunto de carne e órgãos e massa completamente desperdiçada. Sabes o que faria eu, se tivesse esta chance que conseguiste? Sabes o que faria para ter a tua cara, a tua cabeça, os teus ossos, as tuas veias? Nadava entre elas todo o dia a saborear cada partícula de oxigénio que por elas passa. E aqui estás tu, a suster a respiração. Tu deixas-te intimidar pelos olhos, os olhos que não olham para ti, os olhos que olham para ti, os olhos que deviam olhar. Para que queres corpo se ele não é visto? Sabes o que faria para ser visto? Nem tu me queres ver. Sabes que estou aqui, mas mesmo assim recusas- te, olhas para baixo. Sabes o que faria pelo corpo? Muito mais do que tu fizeste.

Piscina. O teu pé encolhe-se ao tocar na água. Viras-te para mim. Olhas para mim. A minha pele ainda queima, mas eu não me importo. Olho para ti. Dois seres cinzentos a olhar um para o outro. Aproximas-te. Mais perto. Mais perto. Dois corpos juntos novamente. Tinha saudade da tua pele. Ficamos assim, a queimar. Começas a arranhar, arrancar as partes negras lascadas da minha pele. Respiras.

Cobre-te completamente um líquido negro que antes era a forma que eu tomara. Cheira a petróleo sobre o teu corpo. Já consegues andar. Dás um passo. Deixas uma pegada negra na calçada. As pessoas olham para ti. Param, e olham para ti. Passo. Aproximam-se. Passo. Todas as caras respiram em uníssono na tua pele. Os olhos fazem o petróleo borbulhar. Passo. Esticam as mãos na tua direção. Tocam no líquido preto que escorre da tua pele. Continuas a andar. Com cada passo que dás, mais pessoas passam as mãos por ti, até já não haver petróleo. Chegaste.

Piscina. Estou no chão. Arranhaste, arrancaste toda a pele que tinha. Os meus olhos abrem e fecham exaustos. Consigo ver-te. Comes cada pedaço da minha pele cuidadosamente, dando pequenas dentadas. Tornam-se pó na tua garganta e caem como chuva no teu estomago. Agarras no que fora a minha face, e esticas. Esticas até caber sobre a tua. De joelhos, olhas para o céu. A minha pele estica até te cobrir por completo. Levantas-te. És alguém.

A piscina está como pensaste que estaria depois deste tempo todo. Vazia. Ou pelo menos é assim que parece. Mas ninguém sequer a tentou encher. Não  planos inacabados, pois nunca foram começados. Folhas e insetos mortos juntam-se no chão numa cacofonia de cores mortas. O céu está encoberto. Andas até à prancha e olhas para a piscina, para as folhas, para os insetos. O telemóvel tilinta. Olhas para trás. O buraco ainda lá esta, Alguém ainda lá está.

Piscina. És alguém. Flutuas na água cristalina e olhas as estrelas. És livre.

Vais até ao buraco. Vês alguém com um fígado dilacerado nas mãos. Olhas para baixo. Estendes a mão. Eu aceito-a. Tiras-me da minha prisão e levas-me contigo até à prancha. Olhamo-nos.

Falas: Vamos. Onde? Flutuar. Tens medo? Tenho. Mas está cheia. Talvez. Eu tenho medo. Quem não.

Vamos? Vamos.

E de ossos quebrados, flutuamos e vemos as estrelas novamente.

(Nota da autora: Este conto foi realizado em 2019, em âmbito da cadeira de Escrita Criativa. Para os curiosos, tive 18 valores. Foi inspirado pela música "You" de Greta Isaac e pelo conto "A Doença da Morte" de Marguerite Duras, que recomendo muito ler se gostaram do que leram agora.)

1 comentário :

  1. Adorei a profundeza psíquica que se lê e sente ao ler.
    Muito bem escrito.

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