Nero: "A literatura é para todos"

Desde os 15 anos que Nero trabalhou no seu "monstro", uma nova epopeia portuguesa, "Oceano, O Reino das Águas". Após 18 anos, finalmente conseguiu que esta poesia épica com inspiração nos clássicos chegasse às nossas estantes. Antes da sua sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa, este poeta revela o trabalho árduo por detrás desta obra, explica como esta, apesar de exigente, é para todos os que a desejem ler e inspira futuros poetas a manterem-se verdadeiros a si mesmos.

No dia da sua sessão de autógrafos da Feira do Livro de Lisboa, onde se sentou a conversar com os seus dedicados leitores que "mergulham" na sua história, com uma grande concha decorativa e postais para oferecer ao seu lado, o poeta Nero parou no estúdio para um episódio de E-scritores - desta forma, mesmo os que não conseguiram ir à Feira do Livro conhecer o autor, poderão ouvir a sua voz, aqui transcrita.

Não é todos os dias que vemos histórias contadas neste formato: porquê a poesia épica?

Ora, a questão é mais porque não, não é? Eu não acredito que hajam formas mortas. E a verdade é que se a poesia épica, a clássica, chegou até aos dias de hoje, é porque há quem a leia, há quem a estude e reconheça nela determinada qualidade. Eu acredito é que a poesia épica é muito desafiante de escrever, e talvez por ser uma forma tão difícil ou tão exigente não se escreva tanto quanto isso. 

Mas tens algum gosto especial para teres escolhido este formato?

Sim, claro que sim. Nomeadamente quando cheguei à faculdade, estudar literatura passa muito também por estudar os clássicos. Quando digo clássicos é mesmo os clássicos gregos e romanos, portanto, estudar Homero, Hesíodo, enfim. É muito apaixonante descobrir aquelas mitologias clássicas a partir das epopeias.

E falando aqui do facto de estas mitologias, como por exemplo, as obras de Homero, serem vistas como estes clássicos muito "cultos". Vês isso no teu próprio livro, de ser para pessoas mais "cultas", por assim dizer?

Por ser epopeia? Não necessariamente, vamos lá ver, também se diz hoje em dia que a ópera é só para gente erudita. Eu não acredito, embora todos tenhamos preconceitos e eu compreenda a existência dos preconceitos, e por mais que lutemos por um mundo melhor, faz parte da nossa condição ter preconceitos e nunca nos livraremos deles - mas eu não acredito, por exemplo, que a ópera seja só para gente erudita ou de um determinado estrato social. Aliás, antigamente, há 200 anos atrás, nem é preciso ir muito mais atrás, a ópera era para o povo. Isto de que há classe para a arte e que os ricos, os poderosos, os eruditos são mais aptos para um determinado género ou determinada forma, eu não vejo bem as coisas assim. A literatura é para todos. O ensino, a leitura democratizou-se. Cada vez mais a taxa de analfabetos diminui. Portanto, isso significa que cada vez se lê mais. Não necessariamente literatura, mas cada vez há gente mais instruída e cada vez gente mais capaz. Hoje em dia é possível uma pessoa como eu, por exemplo, que não nasceu num meio de gente dita "erudita", que lê, ou que ouve música, ou que vai a concertos ou que vai ao teatro - é possível uma pessoa estudar, ler, formar-se e depois escrever uma epopeia. 

Isto, o "Oceano, O Reino das Águas", não é necessariamente uma obra para gente muito culta. Agora, exige, e isso eu tenho noção, não estou aqui para enganar ninguém, exige um determinado nível de leitura, isso sem dúvida.

Mas é um nível que qualquer pessoa pode atingir.

Ah, claro que sim! Claro que sim. Eu não sou um super-homem (risos) Eu tenho um bocado aquela visão que todos os escritores são de alguma forma deuses, no sentido em que criam e recriam, é esse muito o papel da arte.

Mas qualquer pessoa pode vir a ser um desses deuses.

Sim, há sempre um ponto na história da humanidade em que as criaturas se tornam criadores. Esse é o nosso caso, nós enquanto seres humanos temos a capacidade de criar e de recriar a partir de tudo o que existe há nossa volta. Portanto, isto não é de todo um livro inacessível. Tem um nível mais complexo, eventualmente, porque tem várias camadas, portanto, tu podes ler o livro de início ao fim e tomas noção da história, percebes a história, gostas ou não. Mas depois, tens várias camadas que só se revelam eventualmente nas releituras, nas entrelinhas, na interpretação dos símbolos. Esse é todo um nível de leitura mais exigente que só um leitor, creio eu, mais treinado, terá a capacidade para entender. Eu creio também que é isso que define um leitor num estado mais evoluído, não é? Nós não nos satisfazemos em ler mais do mesmo, queremos ler diferente, queremos ler algo que nos desafie também a evoluir enquanto leitor. Provavelmente o "Oceano, O Reino das Águas" será um desafio para muita gente. 

Falaste em ser um livro exigente de ler. É igualmente, suponho eu, exigente de escrever. Que dificuldades é que enfrentaste ao adotar este tipo de escrita tão trabalhoso?

Este livro será exigente de ler para quem tiver dificuldade, se calhar, numa leitura mais subjetiva. Mas para outros leitores será, se calhar, uma delicia. Pode ser até, para quem gosta de literatura pura e dura, um livro profundamente lúdico. Eu acredito muito nisso. Apesar de ter sofrido horrores a escrevê-lo, diverti-me muito com ele. Mas ainda bem que o escrevi e me livrei dele. Como eu costumo dizer, antes o monstro fazia-me companhia, servia-se de mim e eu servia-me dele, agora, conclui o monstro, libertei o monstro e fugi (risos). Agora quem quiser que o mate ou então que se deixe devorar. Já me livrei dele.

Escreves-te-o durante 18 anos, e isto é um facto que eu quero que as pessoas saibam todas, escreveste este livro durante 18 anos. 

Foi uma coisa muito trabalhada, muito esculpida ao longo destes 18 anos. Eu queria ter uma escrita diferenciadora, que me diferenciasse dos outros. Não faria sentido eu lançar um livro - mas essa é a minha perspetiva do que é um autor - se perpetuasse ou se continuasse a escrever da mesma forma que os outros escrevem. Para isso já existem os outros escritores. Eu queria ter uma forma de escrita diferente, única, mais pessoal. Não estou a dizer propriamente que é uma escrita original. Isto da busca da originalidade, costumo dizer que é uma ilusão. Ainda para mais hoje, em tempos capitalistas. (risos) É verdade! Em tempos capitalistas em que só o original tem mais valor, tu se fizeres uma coisa original, uma coisa nova, é a coisa que vai ditar as modas e pode ser vendida a um preço mais alto. Esta é a mentalidade dos dias de hoje, pelo menos aqui neste nosso mundo ocidental. Há que ser original, há que ser novo, mas não há uma necessidade, realmente, de que tudo seja original, e que tudo seja novo, e não é por ser original que uma coisa tem mais valor do que as outras. Até as coisas originais são sempre recriações de alguma outra coisa. Não quer isto dizer que, de tempos a tempos na literatura, não surjam coisas efetivamente originais, mas isso nem sempre é premeditado. 

Foram 18 anos a escrever este livro porque eu comecei a escrever quando tinha 15 anos. Tinha a consciência na altura, e ganhei-a muito rápida mente, que a história que eu queria contar era muito maior do que eu. Eu pus a história à minha frente. É muito comum quando somos mais novos querermos lançar livros, até por uma questão de orgulho, de ego, para mostrar aos outros que somos capazes e para mostrarmos a nós próprios que somos capazes. Mas isso nem sempre significa por a arte acima de tudo e eu queria efetivamente escrever de uma forma que servisse a história. Ao longo do tempo eu fui reescrevendo o livro, inicialmente era prosa. Foi-se tornando cada vez mais uma prosa poética. Já se estava a aproximar cada vez mais da poesia. Isto tem muito a ver com o meu gosto pessoal. 

Tu no fundo és um poeta. 

Eu adorava estudar os poetas na escola. Gosto daquela dimensão subjetiva que os poemas têm. Gosto do facto do verso impelir o leitor para uma dimensão mais aberta. Depois quando eu cheguei à faculdade e tive contacto efetivo com a "Odisseia", com a "Ilíada", com "As Metamorfoses" do Ovídio, etc.. Nomeadamente tive estudos camonianos e voltei a "Os Lusíadas" e estudei "Os Lusíadas" de um ponto de vista mais literário, que não era o ponto de vista que eu tinha anteriormente, ou pelo menos não tinha consciência da dimensão literária d' "Os Lusíadas". Nós estudamos muitas vezes "Os Lusíadas" nas escolas porque representa o povo português.

Não estamos a estudar o livro em si.

É, estamos a estudá-lo quase como um evento sociológico e como uma prova do orgulho português. 

Esse livro [Os Lusíadas] serviu de inspiração para o "Oceano"?

Sim, terá servido necessariamente. Aliás, na epígrafe do "Oceano, o Reino das Águas", presta-se uma homenagem a poetas que foram influências e ainda que não diretamente, Camões é um dos referenciados nesse poema da epígrafe. "O Oceano" presta-lhe homenagem. Diante também se vai estabelecer uma conversa com figuras, ou com uma figura, digamos assim, d' "Os Lusíadas", lá mais para a frente no livro. Portanto, há efetivamente, é plausível essa ligação entre "Os Lusíadas" e o "Oceano, O Reino das Águas". Ainda há tempos, nas conferências da nova acrópole em Oeiras tinham feito referência a isso. O "Oceano, O Reino das Águas" foi mencionado na conferência a respeito do caminho do herói e da iniciação do herói e do trajeto dele no cânon literário, e portanto aparecia "Os Lusíadas", "A Mensagem" e depois aparecia o "Oceano". Há quase como uma herança de estilo, de simbologias, uma linguagem até mitológica que é comum e que é transversal às três obras, por exemplo.

O teu nome "verdadeiro" é Roberto Simões, sendo Nero o teu pseudónimo de Poesia. Porquê Nero?

Eu soube desde muito cedo que o meu nome de todos os dias não seria o nome que eu ia usar na escrita. Na verdade já em várias áreas da minha vida me chamam pelo outro nome. Depois acho que tem que ver com o facto que, enquanto escritor, e ainda mais escritor que cria uma mitologia e um mundo fantástico, nós criamos tudo, damos nome a todas as coisas. Não me fazia sentido chamar-me e usar um nome que diz respeito ao "eu" escritor que é um "eu" escritor que mais ninguém conhece, ou que mais ninguém conhecia até eu lançar este livro. Até as pessoas mais próximas não conheciam aquilo que eu escrevia. É uma coisa muito pessoal, muito única. É uma pessoa substancialmente diferente daquela a que me chamam pelo outro nome. 

Queria aproveitar a oportunidade, é a primeira vez que me colocam esta questão numa entrevista, estava naturalmente à espera do dia em que me fizessem essa pergunta. Fora entrevistas têm perguntado às vezes "Qual é o teu nome verdadeiro?". Aquilo que queria dizer é: não é por me chamarem um nome que foram outras pessoas que me o deram, que é mais verdadeiro do que um nome que eu escolhi para mim próprio. Pelo contrário. É precisamente por ser um nome escolhido por mim próprio que potencialmente é um nome mais verdadeiro do que o nome que me escolheram chamar. 

Agora, esta questão tem ainda outras ramificações.

Que é porque razão escolheste o nome Nero, que por acaso é um nome de um imperador romano. 

Sim, assassino, que matou a família toda (risos). Primeiro por um lado, para quem estudar a etimologia ou a história do nome "Nero", pode significar forte, mas também pode significar de águas límpidas, de águas abundantes. Portanto essa origem naturalmente agradou-me, até porque tem tudo que ver com este livro que durante muito tempo pensei que ia ser o meu livro único, eu efetivamente durante muito tempo escrevi-o como se fosse o último livro que eu escrevia. Não sabia se ia escrever mais, não tinha mais livros em mente, portanto escrevi como se fosse o meu último livro. Sem pressa para acaba-lo, fui escrevendo. De águas abundantes, de águas límpidas, tinha muito que ver com aquilo com que me identificava enquanto escritor e com o objeto da minha escrita. Por outro lado há toda uma acessão de Nero que tem a ver com negro e pondo as duas coisas na balança, as águas límpidas, por um lado, e o negro, temos aqui uns opostos que me agradaram bastante. 

De águas profundas. 

De uma coisa à outra vai tudo e vai o nada. Isso agradou-me. 

Depois temos de falar naturalmente no imperador Nero. Eu sabia que queria um nome para mim que fosse curto, e depois cheguei à conclusão - pensei em vários nomes antes de Nero - queria um nome que não tivesse nome de família, não queria trazer para a escrita uma coisa que não fosse minha, em termos de nome.

Que não fosse único. 

Eu queria trazer quase com o nome a afirmação da individualidade sobre a nossa natureza coletiva da família. Porque por mais influencias que nós tenhamos da nossa educação, dos nossos pais, das nossas mães, do nosso contexto familiar, há sempre, em qualquer um de nós, qualquer coisa que é única. Que não veio de ninguém, não veio do pai, não veio da mãe. Ao renunciar, de certa forma, ao nome de família, eu realço essa unicidade, essa individualidade. Isto liga com o Nero, porque o Nero é conhecido por ter morto a família toda, ou grande parte da família. 

Que apesar de ser um desastre, também é algo que pode ser interpretado simbolicamente.

Exatamente, é uma metáfora do facto de eu renunciar à família. Depois, só para terminar, deixa-me dizer, os nomes não trazem com eles culpa. Nero é considerado um nome maldito. Pelas características de Nero vês perfeitamente que podia ser um nome comum, corrente, na língua portuguesa, masculino, mas que caiu em desuso e deixou de se utilizar por estar associado aos terríveis atos do imperador. Agora, os nomes não acarretam culpas. 

Falaste aqui que por muito tempo tu pensaste que este ia ser o teu único livro, agora já não pensas isso? O que podemos esperar de ti no futuro?

Não penso isso porque já aconteceram mais uns quantos entretanto. Eu assim que terminei O Oceano, estava com a pulsão da escrita ao rubro e em seis meses escrevi mais três ou quatro livros. Todos de poesia, naturalmente. São poemários, nada desta dimensão. Espero - nunca posso dizer nunca, mas - espero nunca mais me meter numa coisa destas. Não digo que não volte à fantasia, mas isto consome muito. Foram 18 anos, mais de metade da minha vida na altura em que eu conclui, quer dizer. Ninguém imagina, se vocês acharem que é tortuoso ler este livro, imaginem escreve-lo e ser um livro que me consumiu durante tanto tempo. É um pesadelo, é um monstro, completamente.

Já tens mais livros que queres publicar. É fácil publicar poesia em Portugal?

Sim e não. Depende da forma como optares por publicar. Se tiver dependente essa publicação da escolha e da decisão de uma editora, não será fácil necessariamente, sobretudo para um novo autor, qualquer género literário. Ainda para mais a poesia que é dito - com algumas razões - um género que não vende. Isso tem que ver também com o facto de vivermos num mundo e num tempo em que queremos tudo mais imediato e tudo mais próximo da nossa experiência. Nós estamos habituados a ver telenovelas, filmes, séries, coisas sempre mais objetivas, rápidas que aconteça ação (onomatopeias de rapidez). Uma coisa mais lenta, ou que nos obrigue a pensar é diferente. É mais trabalhoso? Há coisa mais bela e divertida de a poesia? Essa é provavelmente uma ideia feita, se as pessoas, agora por ocasião da Feira do Livro por exemplo, lerem mais poesia, é tudo menos dinheiro mal gasto. A poesia, narrativa ou não, como é este caso, a poesia proporciona viagens, experiências, saberes e descobertas tão grandes ou maiores do que a prosa. 

Que conselhos para quem gostaria de escrever poesia e poesia épica em Portugal?

Eu não sei se alguém quer escrever, ou pensa em escrever poesia épica em Portugal. (risos)

Se tu pensaste, outra pessoa no mundo há de pensar.

Ora aí está um pensamento acertado! Agora, vamos lá ver, sejam verdadeiros e estudem. Sejam o mais verdadeiros possível, finjam sobre a verdade de todas as coisas.

O poeta é um fingidor. 

Sim, mas se não forem verdadeiros - isto dá discussão para mangas - eu duvido muito que o Pessoa tenha sido outra coisa senão verdadeiro. Mesmo quando fingiu tanto. É só sendo verdadeiro que ele se pode expressar da forma como se expressou e feito chegar o génio que ele foi. Por outro lado, para além de serem verdadeiros, e essa é uma condição sinequanon, para escrever poesia, tudo o que não seja escrito com verdade não é poesia, é qualquer outra coisa. Para além disso é estudar, estudem, não estudem necessariamente literatura, estudem o homem, estudem o homem nas suas mais variadas vertentes. Quanto mais experiência vocês tiverem da vida, mais coisas vocês têm para dizer com propriedade. Depois, não se limitem a fazer a cópia, da cópia, da cópia, da cópia. Criem, recriem, rasguem, baralhem as cartas de vez em quando. Sejam Deuses. 



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